Eterno Profano
Eterno profano,
retorno.
Circo demoníaco
de muitos infernos pessoais.
De entrada grátis.
Aberrações e jaulas.
Grita a multidão,
em alegria desvairada.
Revirando olhos.
O saco de alegria,
a pipoca caída.
Da criança que se assustou com
o bum do palhaço.
É o espetáculo da vida.
Desfile de esquisitices.
O escuro do picadeiro.
O mistério incontido.
A jaula sem animais.
Uma vida vazia.
Circo do inferno.
Eterno profano,
retorno.
Caros amigos,
Então chega mais um outro ano! Novas esperanças, projetos, o que nos trará o mistério envolto nas névoas do futuro?! Essa questão instigante é que nos move. Sigamos o fluxo incessante. Que todos tenhamos muita força para perseverar, muita clareza de mente para discernir as escolhas mais acertadas. Que sempre possamos ser melhores. Desejo um ótimo ano a todos, e deixo-lhes para este 2012, uma bela mensagem de Cora Coralina, ‘Saber Viver’, que sempre me acompanhou desde muito tempo!
Um grande abraço, fiquem todos bem!
Não sei… Se a vida é curta
Ou longa demais pra nós,
Mas sei que nada do que vivemos
Tem sentido, se não tocamos o coração das pessoas.Muitas vezes basta ser:
Colo que acolhe,
Braço que envolve,
Palavra que conforta,
Silêncio que respeita,
Alegria que contagia,
Lágrima que corre,
Olhar que acaricia,
Desejo que sacia,
Amor que promove.E isso não é coisa de outro mundo,
É o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela
Não seja nem curta,
Nem longa demais,
Mas que seja intensa,
Verdadeira, pura… Enquanto durar
- Cora Coralina.
A polêmica rola solta sobre um tal vídeo de uma moça, dita enfermeira, que maltrata um animal. As reações são tensas, vindas de pessoas que se dizem pacíficas…
Será que não há um “motivo” para essa tal enfermeira ter feito isso com o cachorro (sendo que não há realmente, qualquer justificativa para uma violência!)?! Uma pessoa ordinária, dessas como todos nós, não sai matando cachorros a seu bel prazer, numa psicopatia velada. Deve haver algum embasamento. “Quem sabe o cachorro seja doente, de má formação,” ou então ela, num acesso de raiva, agrediu o animal com mais força e o bichinho machucou-se muito (coluna, pescoço, talvez), ficando inválido. E a moça, na sua curteza de pensamento, pensou em “ter que ‘sacrificá-lo’”. Mas onde isso?! Em casa mesmo, como levá-lo a um veterinário? E ser acusada de maus tratos?! Foi o medo, talvez, que a tenha feito chegar a esse ponto.
Interessante é ver o frenesi insano de ódio a que as pessoas se atiram, simplesmente baseadas em suposições, ou numa análise rápida, polarizada, e incompleta da situação. Viram apenas a cena da morte, mas desconhecem o contexto. Aliás vi o vídeo, e não vi o cachorro morto. Vi cenas de maus tratos, execráveis, o que ainda sim, claro, é muito ruim. Já começa por aí…
Transporto a ideia e imagino que as pessoas que gritaram “SOLTEM BARRABÁS” em vez de “SOLTEM JESUS”, no episódio em que Pilatos lava as mãos, também estavam nesse frenesi apoteótico, onde a percepção cai, o julgamento de valores some, e todos são movidos apenas por impulsos massificados. Quem analisasse todo o contexto, quereria ainda que fosse Barrabás o libertado?! Como agiríamos no lugar daquela enfermeira? Por que se atiram com tanta raiva essas pessoas contra esta mulher?
Vendo essas manifestações é que percebo como o equilíbrio da sociedade é tênue e frágil, e que a situação de paz, pode ser substituída por algo muito perturbador, por coisa pouca. Multidões enraivecidas, destruição, linchamento, perda dos valores democráticos, ou da justiça racional (pela lei de Talião, no olho por olho, dente por dente!).
Poucos são os que realmente estão aptos a serem bons líderes, exemplos ou guias. Sem se deixarem levar pelas paixões do momento, ou pelas análises rasas. Evidente, que o ato de agressão da moça é abominável, agravado ainda pelo fato da agressão ter-se dado em frente a uma criança, um péssimo exemplo para o futuro! Antes das pessoas espumarem de raiva, quem fez o vídeo, espero, que tenha denunciado a moça à polícia por maus tratos a animais (e que ela seja enquadrada nessa situação). Apenas indignar-se repassando um vídeo sem contexto numa rede social, é uma omissão preguiçosa!
A violência nunca será a ferramenta útil para se construir algo melhor no mundo. Nem mesmo contra aqueles que a utilizam para perveter a harmonia da sociedade. Uns dizem ‘ah, mas quando isso lhe atingir, o que você faria? Faria o mesmo!’. É, pode ser, mas antes de mais nada, digo que há de se pensar a respeito. Antes de espumar de raiva!
Mensagem: Fim de ciclo
Mais um dia que se passa. Logo ali mais um ano que se encerra. Mais um ciclo que se viveu, mais lembranças, mais passado, mais história! Como podemos resistir a essa torrente invisível de dias, horas e segundos, que nos arrasta, degrada e nos envelhece? Até que cansados, cambaleantes, entediados de tanto tempo vivido, velhos e ou doentes, ou ceifados ainda na tenra idade, somos completamente tragados por esse vórtex, desistimos de resistir, permanecer. Desaparecendo sob os pesados véus da morte e do esquecimento, do pretérito, pois também morrerão um dia os que permanecerem para guardar a nossa lembrança, chorarem a nossa perda. Até o completo fim, o esquecimento total.
Nunca nos esqueçamos, portanto, que tudo isto que cá nos cerca, e parece-nos tão real, tão sólido, tão ‘tudo’, lá no fundo, não deixa de ser uma longa viagem por um caminho nebuloso, com rumo, destino e fim incertos. Mas também, que este trajeto no escuro pode ser bem aproveitado, se soubermos nos portar como verdadeiros viajantes, nômades, e não como proprietários de terras, casas, gentes e coisas.
Abraço!
Sempre hoje e sempre
E a gente tanto brinca
e se diverte.
Ri de tudo, também da desgraça.
Como alento.
Acorda, trabalha e esbraveja.
Paga contas, nasce e morre.
Esquece e é esquecido. Vai e vem.
Mas o problema não é tudo
que acontece ou deixa de
acontecer.
Que nos deixa triste
ou alegre.
De tudo que se podia e foi
ou não foi.
O problema de sempre é com
o tempo.
O tempo que vem e muda
a gente.
O tempo que gasta.
O tempo que vem e muda
o mundo.
O tempo que tranforma.
O tempo que vem e muda
todo mundo!
Em apenas um segundo.
Quando já não somos nem seremos,
nunca mais nós mesmos.
Decepção
Decepção e vida, o caminho, nossa vivência, são companheiros inseparáveis. A todo instante ela pulula, em diversas partes do mundo, em diversos corações, de muitas maneiras e intensidades.
São momentos de dor, angústia e ansiedade. Pela chuva quando se esperava o sol, pelo amor que não foi retribuído, pela promoção perdida mesmo após tanto esforço empreendido, pela colheita destruída por conta de uma seca, granizo ou muita chuva. Por tudo aquilo que se esperava, mas não chegou.
Nesses momentos de vazio dor e desespero, perpassamos por muitos sentimentos. Tantas sensações e ideias levitam e rodopiam em nossa mente, perdemos muito de nossa própria cor. A vida se esvai sem sentirmos, lentamente, enquanto estamos decepcionados. Ela nos é tão dura nesses momentos pois chegamos ao ponto, neste ápice que nomeamos decepção, em que nos confrontamos com a quebra de nossos desejos, com nossa fraqueza e impossibilidade de controlar eventos, pessoas e situações alheias a nós mesmos. Em que presenciamos os nossos desejos e aspirações nos traindo, em nome da realidade, esta velha durona e atroz. Onde se pervertem todas as esperanças, os porvires, as antecipações. Sente-se o amargo dos sonhos desconstruídos, da saudade das benesses pré-vividas, e aguardadas, e que por se tornarem impossíveis, pois jamais lhes será possível ocorrerem, transformam-se em tristes contemplações, tais como as despedidas de morte, irreversíveis.
A decepção será herdeira deste mundo e de todos nossos dias vindouros, enquanto persistirmos nessa ideia de presunção sobre os eventos futuros, ou atitudes dos outros. Enquanto ansiarmos por conduzir, e antecipar, muitos dos acontecimentos que nos acometem ou em que estamos envolvidos. Fatalmente nos decepcionaremos. Sempre, sem escape um dia haverá de acontecer.
É preciso reconhecer-se fraco, sendo então um verdadeiro forte. Com humildade aceitar o que não pode ser controlado, e viver gerindo apenas o que temos sob nosso comando, que não vai mutio além do que simplesmente somos, de nosso caráter e atitudes. Tendo isso em mente, poderemos seguir sobre os atropelos e obstáculos que irremediavelmente cruzarão nosso caminho, de modo que, não tão combalidos ou afetados por esses revezes, retornaremos fortes e reconfortados muito mais rapidamente aos trilhos da vida, prontos para o devir. Esse outro olhar nos tornará resilientes, e praticamente imunes, às vicissitudes da vida quotidiana. Endurecerão nossa pele contra o frio que sempre perambula por aí à nossa espreita em qualquer novo caminho que decidamos seguir.
Também já fui brasileiro – Drummond
“Também já fui brasileiro
Eu também já fui brasileiro
moreno como vocês.
Ponteei viola, guiei forde
e aprendi na mesa dos bares
que o nacionalismo é uma virtude.
Mas há uma hora em que os bares se fecham
e todas as virtudes se negam.Eu também já fui poeta.
Bastava olhar para mulher,
pensava logo nas estrelas
e outros substantivos celestes.
Mas eram tantas, o céu tamanho,
minha poesia perturbou-se.Eu também já tive meu ritmo.
Fazia isso, dizia aquilo.
E meus amigos me queriam,
meus inimigos me odiavam.
Eu irônico deslizava
satisfeito de ter meu ritmo.
Mas acabei confundindo tudo.
Hoje não deslizo mais não,
não sou irônico mais não,
não tenho ritmo mais não.”– Carlos Drummond de Andrade
Abraço, fiquem bem! =)
Divago
Ficarei antes de tudo com os valores imortais. Aqueles que nem o tempo, a velhice ou o esquecimento, nem a queda de altas posições na sociedade ou a pobreza, ou o próprio fim do mundo poderão levar, desvanecer. Mudar.
Partes que se tornam indistintas de mim mesmo, conforme as assimilo, nesse amálgama, nessa dança, em que nos metemos quando passamos pela vida.
Fora irão todas as revistas, e jornais, e propagandas e ‘midiatices’. Ficarei com o que jamais envelhecerá e que sendo reconhecido, valorizado e aproveitado, talvez, pelos que venham depois de mim, tornar-se-á eterno, como num incessante fluxo, tal qual o calor.
É assim que viverei.
Receita para se esquecer um grande amor
Esta pergunta flutua e persiste em muitas cabeças por aí, inclusive na minha agora, não vou me eximir. Identifiquei-me muito com o que segue abaixo escrito. Por acaso achei esse texto nas aleatórias indicações do “Digestivo Cultural” (recomendo!). O texto é ótimo, ao menos para mim foi. Gostaria de compartilhá-lo com todos, para ficar aqui o registro. Sublime! Aproveitem. Um daqueles textos excelentes que a mente humana pode produzir. Sem mais, o texto fala por si.
Um grande abraço!
Receita para se esquecer um grande amor
por Marcelo Maroldi
Às vezes eu fecho os olhos, inspiro e procuro sentir a presença de quem já não está por perto. É um método que eu inventei tempos atrás…, e uso sempre quando o amor se transforma em saudade.
Os grandes amores existem. As grandes paixões existem. Eles existem. Eles simplesmente existem. Eu desejo que todo ser humano possa sentir o que eu um dia já senti. Somente uns poucos minutos daquele entorpecimento juvenil, daquela inundação de sentimentos que enlouquecem, daquela loucura toda que te envolve, te amedronta, aquela confusão monstruosa que vivi quando amei. E quando fui amado. Uma paixão avassaladora que me fez acreditar que eu ainda permanecia vivo. Vivo e amando. E amado. Mas, agora, eu fecho os olhos para dormir. A cama cresceu tanto de tamanho, o meu peito cada vez está menor. E muito mais vazio. Ninguém a me ninar. A minha mão não encontra a sua. Quem foi que viu a minha Dor chorando?! (Augusto dos Anjos, “Queixas Noturnas”. Mas, no meu caso, diurnas também). Eu quero uma receita para se esquecer um grande amor, o senhor tem aqui para vender? O preço não me interessa, eu só quero poder seguir em frente. Nem precisa ser em frente…, basta seguir. Porque A minha vida sentou-se/ E não há quem a levante (Mário de Sá-Carneiro, “Serradura”).
E o vazio logo aparece, não dá um minuto de folga (“meter a cara no trabalho” é algo que também não tem funcionado). O telefone não toca naquela hora, a minha caixa de e-mails não tem pena de mim, já não tem novidade boa a me contar. Uma sensação leve e prematura de derrota logo se apodera da gente. Depois ela cresce. Já não é mais sensação, é derrota mesmo. Eu não tenho mais para quem escrever os meus defeituosos poemas, a quem dedicar meus pensamentos, quem vai me acalmar quando a agonia aparece sem avisar? Eu me sinto tão sozinho. Por vezes eu nem me sinto. Meus olhos não vertem lágrimas, o meu coração não dispara. Será mesmo que estou vivo? Ainda nem maldisse toda a minha sina e mazela, nem afoguei minhas (agora) crônicas mágoas na cachaça libertadora, também não há outro perfume no meu corpo. Viver é amar, um dia me explicaram direitinho. Eu era inocente e acreditei. Só inocentes e tolos crédulos aprendem isso, eu tive o azar de ser um deles. Nem ouso reclamar.
Quando acordei foi em você que eu pensei. Provavelmente pensei em ti durante toda a noite também, mas dessa vez tive a sorte de não recordar. Não importa como minha vida esteja seguindo, é sempre em seu sorriso que meus pensamentos se convergem. Não há fuga nem plano B. Eu aprendi que não é te esquecendo que irei me livrar de você. Não importa quanto tempo transcorra, jamais me esquecerei daquela noite, aquela, quando estupefata você ouviu minha curtíssima e derradeira declaração de amor. Metade do tempo eu reflito sobre o que ela significou e o que ela irá se tornar em alguns parcos anos. Logo, meu coração será de outra, as suas coisas queimarei no quintal (afastando a cachorra para que não se queime) e essa frase eu voltarei a dizer. Mas não para ti, jamais para ti, nunca mais para ti… Você será apenas uma lembrança, feito tantas outras, e eu serei apenas uma lembrança para você… feito tantas outras. Já não me amas? Basta! Irei, triste, e exilado/ Do meu primeiro amor para outro amor, sozinho (Olavo Bilac, “Desterro”).
Quem errou mais? Isso não importa agora, logo, posso ficar com toda culpa pelo nosso fracasso. Sempre sonhei com algo diferente, como nos contos de fadas e nos pagodes de três notas (e se me perguntam Que era mesmo que eu queria?/ ”Eu queria uma casinha/ Com varanda para o mar/ Onde brincasse a andorinha/ E onde chegasse o luar”, Vinicius de Moraes, “Sombra e Luz”). A realidade foi deveras distinta disso, só Deus é testemunha das minhas queixas. Mas, nesse momento, nada disso importa, nada do que doeu agora importa. Eu vou ficar aqui, sozinho, com minhas lembranças e nosso fracasso. Vou lembrar das partes boas, para me emocionar com a saudade. Não lembrarei de nenhuma briga, nem nada disso! Eu quero uma receita para esquecer dos momentos ruins, dos bons eu não preciso. Não preciso e não quero. Para que esquecer do que me orgulho? Do que me fez feliz? Deixa a saudade me machucar, meu anjo, uma hora ela se cansa. Eu não abro mão de recordar o quanto fomos felizes. Acabou, mas não sem muito amor. É o fim, mas não antes de muitas promessas de eterna felicidade. É isso o que vale, afinal. Eu busco isso a cada instante de minha vida.
Mas agora ele está lá e eu aqui. Ele está lá seguindo a vida dele, e eu estou aqui, seguindo a minha. Aqui eu te amo e em vão te oculta o horizonte (Neruda, “Aqui eu te amo”). Ela esta lá vivendo a vida dela como se nada tivesse acontecido. Acho, realmente não sei dizer (Teus olhos são duas silabas/ Que me custam soletrar./ Teus lábios são dous vocábulos/ Que não posso,/ Que não posso interpretar Fagundes Varela, “Canção Lógica”). Eu aqui, não triste, mas saudoso. Às vezes eu olho para os céus para descobrir se sinto algo de novo. Quem sabe um daqueles meus suspiros. Passo horas olhando as estrelas, sem entender por que elas brilham. Elas deveriam fazê-lo somente quando você fosse minha, não em qualquer situação. Mas você segue a sua vida, almoça feliz e se diverte enquanto procuro a receita para te esquecer. Sei que não irei sofrer, o que me castiga é a saudade. Não irei chorar, nem lamentar, tampouco desejar a morte. Irei apenas seguir em frente, sozinho agora, às vezes pensando: o que será que ela faz nesse momento?, agora que chove lá fora! O que será que ela faz? Será que pensa em mim? Será que sorri? Eu abro os braços para envolver a minha vida.
Lembra da música da Elis? Vou querer amar de novo e se não der eu não vou sofrer…? Preciso te dizer a verdade: se isso acontecer, eu vou sofrer sim, meu coração só existe para amar de novo, espero que você entenda. Eu sigo a minha vida por aqui, você continue a sua por aí. Se consegui a receita para se esquecer de um grande amor? Não, parece que isso não existe mesmo. A minha é seguir em frente, então, e quando não der, chorar, não há problema nenhum isso, quem aprende a amar, aprende a chorar também (Paulinho da Viola, “Amor Amor”) . Eu aprendi, pratiquei contigo, jamais te esquecerei.
Cantemos a canção da vida,/ na própria luz consumida…
(Mario Quintana, “Inscrição para uma lareira”)
“O ganhador”, Lêdo Ivo (sempre ele!):
Tudo o que ganhei se desfez no ar como uma metáfora.
Agora só guardo o que perdi:
o vento que soprava na colina,
a neve que caía no aeroporto
e o teu púbis dourado, o teu púbis dourado.
———————–
Distante Utopia
E todos os dias,
naquela distante utopia,
vivo e passo,
e todas as manhãs desço as montanhas
com os soldados.
A cada novo raiar do dia
sou morto,
com um tiro no coração.
Em presença de lembranças não vividas,
de saudades fortes, doídas e profundas,
em reviravoltas de contos e causos
estranhíssimos.
Que nessa outra vida se me afiguram.
Sou morto,
a cada novo raiar do dia.
As lacunas desta vida,
naquela outra não são sentidas.
Tudo que me falta aqui,
sobra-me demais lá.
Mas de nada me adiantam essas coisas todas,
pois lá sou morto,
a cada novo raiar do dia.
Enforque-se na corda da liberdade!
Adoro esta frase ‘Enforque-se na corda da liberdade’.
Procurando pelo termo achei uma ótima reflexão, transcrevo aqui, vinda deste link: http://sededepeixe.blogspot.com/2010/11/enforque-se-na-corda-da-liberdade.html
Maldito tédio esse que me faz esquecer que a vida tem muitos atrativos, e que me embota com um vazio sem início nem fim.Tédio que me traz a angústia de saber que estou vivo nesse momento e no seguinte posso não mais estar. Entretanto, meu lado otimista não me deixar enganar, ele me diz que posso e devo aprender muito com esse tédio que me invade nos sábados chuvosos. Se eu me sinto vazio, sem ânimo, sem motivações, é justamente nessas horas que eu percebo o valor de uma conversa entre amigos, daquele abraço forte e apertado, seja de quem for, do sorriso daquele estranho na fila do cinema, do bom dia do porteiro do meu prédio, bom dia aquele que não é desejado por obrigação, mas sim por gentileza. O tédio é um dos males da humanidade, pode-se vir a sucumbir a ele, diria ate a morrer, é um demônio, mas eu penso que a gente deve muito aos nossos demônios, por que são graças a eles que somos o que somos hoje e sempre.
Relógio de Ponto – Alberto da Cunha Melo
Todos os créditos ao autor deste belo poema! Aproveitem.
Um grande abraço.
Relógio de Ponto
Tudo que levamos a sério
torna-se amargo. Assim os jogos,
a poesia, todos os pássaros,
mais do que tudo: todo o amor.
De quando em quando faltaremos
a algum compromisso na Terra,
e atravessaremos os córregos
cheios de areia, após as chuvas.
Se alguma súbita alegria
retardar o nosso regresso,
um inesperado companheiro
marcará o nosso cartão.
Tudo que levamos a sério
torna-se amargo. Assim as faixas
da vitória, a própria vitória,
mais do que tudo: o próprio Céu.
De quando em quando faltaremos
a algum compromisso na Terra,
e lavaremos as pupilas
cegas com o verniz das estrelas.
– Alberto da Cunha Melo
Palavras, Humores & Brios
Ditos e ditas,
palavras, benditas.
Ao me dizerem a
verdade,
nua, dura e crua,
malditas!
Aquilo que sai da boca,
é hálito do espírito.
Revela no seu aroma
os intentos do brio.
Queimem os maus dizeres,
as palavras sujas.
Apodreçam as bocas dos
maledicentes difamadores.
Que suas cinzas, seu pó,
jazam no chão cru, espalhadas
pelo vento do frio inverno.
Como testemunhas do que se passará
a toda língua vil.
Pelo resgate de si
Eu deveria estar um pouco mais mobilizado em prol do meu destino.
Deixar apenas de tanto estar solto, singrando mares incertos, parecendo perdido, quando realmente não estou.
De nada adianta viver a vida, aprimorar-se tanto, se no final de todas as contas eu ficar com saldo zero, não sentindo o vulto, a importância e o real valor de uma vida devotada às virtudes, ao crescimento e aprimoramento; de uma vida que se possa orgulhar-se, bem vivida.
Tendo largado todas as minhas próprias qualidades, em vão.
Tendo deixado a escuridão destes tempos vazios em que vivemos tomar-me o espírito de assalto, invadindo, nebulizando-me. Fazendo com que eu me perca, me deteriore.
Onde está o gérmen de minhas virtudes? Aquela sementeira onde vingavam tantas boas mudinhas de grandes árvores futuras, onde eu esperava ter sombra frondosa e frutos ditosos?
Nessa minha busca quotidiana, ou melhor, nesta não-busca, pois, afinal, tenho descuidado muito da manutenção e vivência das antigas boas práticas, aonde vão dar os meus poucos esforços?
Onde chegarei, para quê tudo isto?
Aterradoramente preso ao passado me encontro. Vivendo de possibilidades que criei ou almejei. De situações já sabiamente incertas e tortuosas, e que mesmo ciente, acabei buscando. Enfim, de realizar que no fundo, tudo que fiz foi cavar um grande fosso ao meu redor, isolando tudo que me era caro, e bom.
Inclusive os tesouros do meu espírito, que tanto me cativam.
Apartei-os de mim, ao separá-los e trancá-los dentro de um grande baú bonito, lançando-o numa ilhazinha perdida numa floresta distante, donde nem sua localização ou a chave que tranca seu cadeado tenho conhecimento.
Terei que recomeçar.
Fazer aterros, rotas, trilhas e caminhos para reecontrar tudo que perdi.
Meus bons hábitos, as boas amizades, os verdadeiros sentimentos e virtudes que eu conheço serem presentes, desde sempre, em meu espírito.
Em alguns momentos, gostaria de não mais precisar fazer isso.
Gostaria de não mais estar aqui.
Contudo não desejo morrer, tenho que passar por essa jornada.
Preciso me descobrir, não posso mais me perder na escuridão.
Já passei tempo demais lá.
Não gostei do que vi e vivi.
Agora que voltei para debaixo da luz, quero regozijar-me novamente com as belas coisas. Amá-las e fazer por merecê-las. Ter os bons impulsos, as ações benfazejas.
Foi para isso que vim, para trazer a paz.
Inclusive para mim mesmo.
E tendo-a em mim, ela transbordará para tudo e todos, e assim como um lago pode se juntar a um rio e este ao mar, assim será com esta paz.
Que o divino me dê forças.
Pois os maiores obstáculos não são os que a vida nos apresenta, mas aqueles que erguemos contra nós mesmos.
Louca Odisseia
Que me acompanhem os amigos
na grande odisseia!
Em que teimando em seguir
os tortuosos rumos incertos,
por vezes tragados somos a
paragens totalmente obscuras.
Singrando dias e noites,
solidões e aglomeros,
dum novo universo que se abre
na esquina de uma praça desconhecida.
E cada instante de descoberta.
é esta coisa viva que passa,
e permeia a tudo e a todos.
Não vê, não sente, esse fogo que arde,
em todos os vagalumes?
Lamparinas da noite.
Alumiam a vista, em momentos de cegueira.
A cada passo um novo capítulo,
uma nova aventura,
o desafio da forma, o fulgor do bravo.
E será eterno aquele, que um dia,
teve sua vida,
transformada numa história.



