Observando alguns slides sobre a primavera no Japão, fico abismado com a diferença de CAPRICHO que se nota em todas as paisagens humanas comparando-se o Japão ao Brasil, por exemplo.
Não consigo ver em nossas urbes ruas alinhadas, bem feitas, sinalizadas, limpas (ou com aquela aparência geral de limpo – aquilo que se bate o olho numa foto e lhe agrada). Nossas calçadas parecem as dum país da ex-Iugoslávia: são crateras, buracos, imperfeições remendos, inexistência. Os postes das ruas tortos, remendados, de concreto esburacado, caiados, sobrecarregados de fios, terríveis. As fachadas desgraçadas das construções, maltratadas pela umidade, tempo, falta de conservação – mesmo dos edifícios públicos (ou principalmente deles). Faltam letras de nomes, placas de ruas amassadas, que há?!
Se você compara o estado geral do ambiente de uma metrópole como Tóquio ao de São Paulo, nota-se que falta muito CAPRICHO. Os postes feios, o basalto mal posto, falho nos desenho, encardido, ruas esburacadas, remendos mal feitos no asfalto e calçadas com aquelas tampas feias que dão acesso a canos e dutos das empresas de serviços essenciais, enfim, uma miríade de pequenas desgraças cotidianas que dão o tom decadente e feio ao todo. Afora a multidão de maltrapilhos que, coitados, não têm culpa (ou têm) de estarem ali, vagabundeando, urinando ou defecando nas ruas (sim, NAS RUAS), amolando transeuntes, ou juntando lixo. Tudo isso somado resulta na figura dantesca das ruas das urbes brasileiras, atualmente, no nosso espaço de convívio e contato disponível com a sociedade, onde se criam os filhos, se fazem amigos, onde se vive.
“Antes de nos darem prisões de segurança máxima, por que não nos dão ruas de segurança mínima?” – Millôr Fernandes (nem vou comentar sobre a segurança, ok?!)
No Japão, em contrapartida, praticamente toda a paisagem tem a marca da ORDEM, respira-se ordem. Seja na construção de calçadas e edifícios, dos passeios, ruas (e a manutenção de todo esse conjunto!), no uso dos hábitos, no estado ambiental das coisas. Tudo muito diferente. Outra aura que se nota, em qualquer flash que se veja das cidades japonesas. Parece um espaço não-humano, povoado, depois de terminado, por humanos.
Isso é capricho. Não me venham falar de pobreza e bla-bla-bla. O que há no Brasil é pobreza de espírito, falta de asseio, de educação. Gente ignorante que preza por ser molambenta e usar isso como apelo à piedade alheia, uma malandragem moral. E isso não se aplica apenas aos pobres, os ricos tem sim o seu pesar, e a influência como ‘modelos’ na pirâmide social.’
E isto se nota em qualquer obra em construção, seja a casa do rico, o prédio bacana, ou a obra do governo, que será executada pelo tiozinho pedreiro, no final das contas. Aquele mesmo, que sempre assovia para a mulherada, e que traz no cantinho da boca o ‘ahhh, lá em casa’ que todo mundo conhece. É ele, meus caros, o responsável pela feitura da obra. Não me venham com essa de engenheiro e arquiteto, estes idealizam-na e coordenam-na. Por mais belos e eficientes os desenhos , projetos e esquemas, quem executa é o dito tiozinho e é nele que se percebe, pela eternização da obra completada, a falta de CAPRICHO. ‘Deus está nos detalhes’ (Amém). Mas ele (o tiozinho) não é O culpado, que fique claro. É também.
Tenho uma teoria sobre o capricho, aplicada à análise das calçadas, que diz muito sobre um povo, e por extensão sobre uma nação. Permitam-me explicá-la. Uma calçada bem feita, esmerada, padronizada e em harmonia com o ambiente humano, é uma calçada de alguém que se preocupa e se esmera com o bem-estar da nação (e claro, aí nesse ínterim com seu bem-estar próprio também).
A calçada é a interface de contato do cidadão, do homem, de sua morada (intimidade, refúgio, ‘caverna’) com a sociedade (ou todo o mundo mais). O esmero nessa interface, é o esmero que este indivíduo tem para com os outros, que passam à frente de sua morada, seja a passeio, seguindo para o trabalho, etc. É esmero para com a sociedade, porque sendo um ou milhares os desconhecidos que passam à frente de sua casa, o cidadão deseja que ‘passem bem’ por aquele pedaço de caminho sob sua responsabilidade. A calçada, é o símbolo da responsabilidade do homem comum sobre o mundo, sobre a nação. Ali ele pode decidir como resolve tratá-lo. Se com desdém e desleixo, ou com ordem e interesse. O desleixo com esta parte, é o desleixo com a sociedade. E muito dessa atitude se corrobora por todas as notícias e pelo statu quo, lamentável, que se percebe em nosso país a qualquer um que abre os olhos vê o mundo como ele é (na política, na conservação das escolas, nos problemas estruturais das cidades). É o descaso comunal.
Enfim, essa falta de capricho espraia-se para muitos, ou todos até, os recônditos da sociedade humana, potencializando seu efeito desconstrutivo. Onde entra o toque final, ali nota-se a falta de capricho, a lacuna que nos separa dos japoneses, dos europeus, americanos, etc. E isso não é síndrome de cachorro sarnento não. É o que se vê.
Mesmo as cidades pobres, ou os bairros pobres japoneses têm o seu grau de ORDEM, de harmonia, o capricho possível de se empregar naquela situação. Você pode fazer um negócio bem ou mal feito, mesmo que este negócio seja a sua vida inteira, ou um banco de madeira. É nesse propósito, nessa inclinação, de dar o melhor de si ao fazer alguma, ou qualquer coisa, que o CAPRICHO fará a diferença. E é isso, aliás, que é largamente apreciado, em qualquer desempenho que se tenha, desde a tiazinha dos serviços gerais, ao executivo de uma instituição financeira.
É com pesar que percebo que esse capricho coletivo seja de ordem cultural. Nós, como uma mistura de culturas que, pelo visto, resulta numa soma zero, estamos fadados ao fracasso nessa área (ou a uma muito longa caminhada rumo a mais essa conquista). Essa convulsão cultural que há no Brasil, onde todas as culturas tentam se sobrepôr, ou se autoafirmar. umas sobre às outras (caipiras x urbanos), (negros x brancos), (católico x candomblé) gera essa massa amorfa que somos, sociedade, esses descaprichosos, com a licença do termo.
O capricho é tudo. Ele é que faz a diferença. E, repito, Deus está nos detalhes (interpretação livre para ‘Deus’ aqui).
Abraço, fiquem bem. E, digo, nobres, ESTUDEM!